quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Capítulo 82

Na esquadra, Daniela, sentada numa cadeira cujo muito uso era notório, suspirava de impaciência. O facto de estar ali, prestes a prestar declarações sobre os alegados “abusos que sofrera às mãos de Susana”, como as revistas tão dramaticamente afirmavam, era, na sua opinião, a cereja no topo do bolo de desgraças cujo fermento eram os órgãos de comunicação social. Daquela forma, o que poderia ser um assunto apenas entre ela e a loura, sem que houvesse necessidade de meter quem quer que fosse ao barulho, acabara por atingir dimensões desmesuradas. Só lhe faltava que aquela mesma ida à esquadra aparecesse na capa de outra revista de mexericos.
Cruzando e descruzando as pernas, aproveitou aquela espera para ponderar a única parte de toda aquela situação sobre a qual ainda tinha algum controlo. Apelando à memória e contando pelos dedos, enumerou todas as situações em que a outra se mostrara violenta, primeiro no Sumol, mais tarde quando a sua experiência com heroína não correra nos conformes, depois quando acabaram e Susana lhe torcera o braço e, por último, naquele dia, caso a rapariga não a tivesse segurado. Fora nestas ocasiões, a loura sempre fora muito cuidadosa, tinha era uma certa adoração por álcool e drogas ligeiras e a sua personalidade volátil não ajudava propriamente.
O que a preocupava era o facto de todas as promessas da outra de nunca mais lhe tornar a levantar um dedo que fosse se terem revelado infrutíferas. Assim, como era é que suposto estar casada com uma pessoa que, quando a conversa não lhe agradava, partia logo para a violência? Ela, Daniela, não estava disposta a ser o saco de boxe de ninguém e nada lhe garantia que um dia Susana não a aleijasse a sério. Porém, a última coisa que queria era sequer colocar a hipótese de desistir daquele casamento, depois de tudo porque já passaram. E mais, estava certa de que a loura não a queria mesmo magoar, apenas era propícia a precipitar-se quando ficava de cabeça quente.
O seu momento de introspecção teve que ser interrompido quando a assistente social a abordou, lendo o seu nome no formulário fixo numa prancheta, “Daniela Sousa?”
Levantando a cabeça, a rapariga semicerrou os olhos quando a luz daquela divisão incidiu directamente sobre si. À sua frente, encontrava-se uma mulher de meia-idade, gorducha e atarracada, com cabelos compridos e expressão de misericórdia exacerbada. Contendo o seu aborrecimento, respondeu, “A própria”
“Boa noite, o meu nome é Margarida Simões e estou aqui para falar consigo sobre uma queixa anónima de violência doméstica”, começou a assistente, numa voz enjoativamente doce, que provavelmente visava a deixar as vítimas mais aconchegadas. Só era pena que tivesse o efeito oposto na morena, fazendo-a considerar despejar a última refeição para dentro de um cesto de papéis na sua periferia.
“Gostaria, antes de mais nada, de saber de onde é que partiram essas acusações”, pediu Daniela. Antes de responder ao que quer que fosse, convinha estar a par do que as autoridades sabiam.
“A pessoa que nos fez a queixa diz já ter presenciado mais do que uma ocasião de violência, tendo sido a última esta tarde, quando a Sra. Marques a esbofeteou no carro”, esclareceu a assistente, na sua voz adocicada, “Mas não se preocupe, estou aqui para a ajudar”
“Para que conste, a Susana não me tocou”, esclareceu a rapariga, sequiosa por saber de quem teria partido a denúncia anónima. No entanto, a sua prioridade era resolver toda aquela situação. Qualquer problema que tivesse com a loura resolveria com ela, sem interferência de terceiros.
“Minha querida”, tentou Margarida, afagando a mão da morena com a sua, sapuda, “Não precisa de a defender, se ela lhe tocou merece pagar por isso”
O tratamento arrepiou Daniela, que teve que fazer a sua melhor poker face para esconder o seu desagrado. Aconchegando-se no blazer de Susana, continuou, “Agradeço a sua preocupação, mas as acusações são infundadas”
“E as marcas que tinha ainda há pouco tempo atrás?”, questionou a assistente, sem nunca descorar o sorriso condescendente.
A sua melhor aposta era ser honesta, sem floreados e a morena sabia-o. Pausando um pouco, explicou, “Não querendo parecer vulgar…gosto de sexo bruto e a Susana fez-me a vontade, é normal ter ficado com umas marcas”
A resposta valera a pena apenas pela expressão que assombrou a cara de Margarida, eliminando quaisquer vestígios de doçura. Margarida, ultrajada, tanto que os olhos se esbugalharam, abriu a sua pasta e colocou na mão de Daniela fotografias de cadáveres de raparigas na sua faixa etária, todos eles com hematomas e golpes profundos. Aí, todas as tentativas de manter uma expressão impávida foram por água abaixo. A rapariga levantou o olhar de uma fotografia particularmente gráfica e questionou, “O que é que pretende com isto?”
“Todas estas raparigas julgavam que a última reconciliação era a valer, que as desculpas do namorado eram sinceras e que não voltariam a ser agredidas. Todas elas acabaram dentro de um saco de plástico na morgue”, disse a assistente, elevando o tom de voz, “Mas consigo não tem que ser assim, basta ser sincera. Não duvido que a Sra. Marques consiga ser muito simpática e persuasiva, mas não deixe que chegue a este ponto!”
Juntando o gesto à palavra, pegou numa foto e quase a espetou na cara da morena, que a afastou, agoniada, “Disse e repito, não tenho problemas com a Susana e ela não me bateu, tudo não passou de um mal entendido”
“Por amor de Deus, ela é conhecida por ter um temperamento horrível”, bradou Margarida, já desesperada, “Ela é uma drogadinha! Acredito que o dinheiro lhe saiba muito bem e que ela seja o seu troféu, mas se não fizer nada o mais certo é um dia vir a arrepender-se e, quando esse dia chegar, vai ser tarde demais!”
“Ela não é o meu troféu, estou com ela muito antes de ela ter o estatuto que tem, desde que era Dj, passando pelos tempos em que tocava na rua a troco de esmola”, respondeu Daniela, seriamente incomodada com as acusações, “Não estou com ela pelo dinheiro, é assim tão difícil aceitar que gosto mesmo dela?”
“Vai ver, quando estiver azul e preta vai desejar voltar a este momento e refazer o erro que está prestes a cometer”, concluiu Margarida, esgotada e já sem saber o que mais dizer para incutir o seu ponto de vista à rapariga, “Pode sair se quiser, mas não se esqueça do que lhe disse”
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Foi de mão encostada ao vidro da janela e um mal-estar interior que Susana viu Daniela ser escoltada do carro para o interior da esquadra, por uma agente. Deixando a mão escorregar, a loura deixou que o arrependimento e frustração assentassem em toda a sua plenitude sobre si. Quando julgara que conseguiria cumprir a sua promessa de não voltar a perder a cabeça e a partir para a violência, acontecia aquilo. E tudo fora desencadeado por uma coisa tão pequena, como a falta de jeito da rapariga para dançar…se ela, Susana se irritara com uma simples cabeçada acidental a ponto de despoletar toda aquela discussão, o que faria se fosse algo grave.
Não queria, nem por sombras, pôr fim ao casamento porque não conseguia ter auto-controlo suficiente para resolver as suas diferenças através de uma conversa como gente civilizada. Porém, o que é que lhe garantia que da próxima vez não fazia ainda pior? Esforçara-se tanto para não explodir simplesmente e levar tudo à frente cada vez que não concordava com algo ou dito algo a irritava, mas parecia que teria que tentar ainda mais, mais para o bem da morena, que por outra coisa qualquer, já que por si não o conseguia fazer. Talvez o uso recente de substâncias mais pesadas, facto que a rapariga ignorava, tivesse contribuído para aquela instabilidade, mas não o fazia muitas vezes nem queria arranjar desculpas para as suas falhas.
A voz do agente que a trouxera parecia distante, embora a convicção e rispidez com que este bradara tivesse sido suficiente para a fazer largar os seus pensamentos e voltar à realidade, por muito que esta não lhe agradasse, “Importa-se de fazer o favor de me acompanhar?”
“Ahm?”, disse a outra, arrastando a voz, “Ah…sim, claro”
“Ao menos está mais calma”, comentou o agente, acompanhando-a até a uma sala, cuja única mobília era umas gavetas metálicas, uma mesa e duas cadeiras, “Se não se importa, gostaria de ter uma conversa consigo, nada de especial, esperemos”
O ambiente pesado, juntamente com a decoração, se é que tal se podia chamar, da sala, tão impessoal, provocavam em Susana um sentimento ainda maior de desprotecção e receio. Perguntava-se se Daniela estaria numa sala igual a passar pela mesma situação, o que estaria a dizer e, no pior dos cenários, se teria admitido que a loura já lhe tinha, realmente, batido. Gaguejando, a outra só não tremia dos pés à cabeça porque se sentia demasiado esgotada física e emocionalmente para tal, “A D-Daniela…ela está onde?”
“Isso agora não interessa para nada”, replicou o agente, também ele ansioso por dar aquele turno por encerrado, tanto mais que não perdeu tempo a ir directo ao assunto, “Recebemos uma denúncia anónima de violência doméstica e, de acordo com a qual, a Susana, em mais do que uma ocasião, agrediu a sua mulher…”
“Isso não é verdade, pensei que já lhe tinha dito isso!”, interrompeu Susana, exasperada. Não levantara muito o tom de voz, até porque nem conseguia. Não sabia o quanto a rapariga contara, mas achou por bem fechar-se em copas, afinal mais valia prevenir do que remediar.
“…e esta acusação, além de estar alicerçada em testemunhas oculares, ainda é suportada pelo seu comportamento instável”, continuou o agente, como se não tivesse sido interrompido. Subitamente, pondo um ar austero, acrescentou, “Tal como agora”
A loura abriu a boca, presumivelmente, para se voltar a manifestar, mas, ao ser trespassada pelo olhar severo do polícia, voltou a fechá-la, optando antes por deixar que ele prosseguisse, coisa que fez passados alguns instantes, “Ainda esta tarde teve uma discussão feia com a Sra. Sousa, certo?”
“Sim, isso é verdade, mas…”, começou a outra, num tom apressado, mal pronunciando todas as palavras.
“E, no decorrer dessa discussão esbofeteou a sua mulher, certo?”, interrompeu o agente, cortando o discurso incoerente e atabalhoado de Susana.
“Sim…quer dizer, não!”, corrigiu a loura, nervosa, “É assim, eu enervei-me…mas não lhe bati, nem sequer lhe toquei, não pode dizer isso”
“Até pode ser verdade o que está a dizer, mas os factos não abonam muito a seu favor”, disse o polícia, enquanto anotava qualquer coisa, “Uma testemunha anónima afirma ter estado presente em mais do que uma situação de violência sua”
Aí, a outra ponderou antes de falar. Que se lembrasse, em todas as situações em que tivesse batido em Daniela, ambas haviam estado sozinhas e em privado, era impossível alguém ter visto, com excepção daquela vez no carro. Havia ali qualquer coisa que não batia certo, “É impossível, quando tenho um ponto de vista diferente do da Daniela, resolvo-o com ela e não meto mais ninguém dentro do assunto”
“Isso já não sei e não tem nada a ver com o que lhe estou a falar”, respondeu o agente, “Só lhe estou a dizer que está em má posição, tem uma alegada testemunha e fotos suas a sair de um hospital mais a Sra. Sousa. Tem mais a ganhar se admitir em vez de me tentar enganar”
“Fotos…hospital, ah! Isso foi um mal-entendido”, esclareceu Susana, mais confiante, tanto que acabara por divagar, num registo mais alegre, “Nós tínhamos ido ao hospital porque um amigo nosso tinha sido pai nesse dia e nós fomos ver os miúdos, mesmo giros, por acaso”
“Não me tente enrolar que eu não me distraio facilmente”, rosnou o polícia, eliminando a boa disposição da loura, “E as marcas? Se calhar foram os miúdos, não?”
“Eles são traquinas, mas são a coisinha mais querida…”, voltou a divagar a outra. Ao ver a impaciência do outro, corrigiu-se, embora por breves instantes, “Ah, desculpe…as marcas foi porque…ela gosta à bruta, sabe como é, e eu pronto, não ia dizer que não, não acha?”
“Pronto, já percebi, não me dê pormenores”, apressou-se o agente a dizer, corado e constrangido, não fosse Susana voltar a divagar, “Por hoje, pode ir, mas vamos estar de olho em si e, ao menor deslize vai cantar para trás das grades”
Sentindo retirar um peso titânico de cima, a loura desejou boa noite ao polícia que nem se atreveu a olhá-la nos olhos e abandonou a sala, deparando-se com Daniela encostada à parede e ar de aborrecimento. Seria possível que estivesse com mais medo de a enfrentar do que ao polícia pouco agradável? Abrandando o passo, dirigiu-se à morena, “Hm…vamos?”
“Hm, hm”, anuiu a rapariga, agarrando-se ao braço da outra, gesto que surpreendeu Susana, mas esta nada disse e, antes que dissesse, a morena acrescentou, “O que quer que tenhas a dizer, dizes amanhã, não estou com grande cabeça para isso”
Atendendo ao pedido de Daniela, a loura não voltou a falar durante todo o percurso até casa. A situação não podia estar assim tão má, se a rapariga não a fez dormir no sofá e até se aninhou nela nessa noite.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Capítulo 81

Se Susana tivesse que metaforizar a sua vida naquele momento, fá-lo-ia através de uma rosa, cujo único espinho era aquele artigo nefasto que a acusava de ser agressora. Enquanto os media se mantivessem longe de si estaria bem e encontrava-se grata por ainda não ter sido bombardeada com questões a torto e a direito acerca da alegada agressão, mesmo que soubesse que seria apenas uma questão de tempo. Porém, adiá-lo-ia o mais que pudesse, desta forma teria um período de paz e sossego prolongado. Mas também, se houvesse grandes problemas, Daniela podia refutar tudo, o que era o pior que podia acontecer?
Relativamente ao resto, a loura não podia exigir mais nada. Com jeitinho e calminha, a rapariga já se começava a tornar mais flexível quanto à ideia de crianças, tanto quanto a outra conseguira observar quando fora buscar a morena a casa de Pedro e a vira a entreter os afilhados. Por muito que Daniela não quisesse admitir para não dar o braço a torcer, orgulhosa como era, Susana sabia que esta se tinha afeiçoado a Maria João, sobretudo, tanto mais que nem parecera demasiado enojada quando a bebé lhe vomitara em cima. Se se tratasse de outra criança qualquer, a rapariga teria decidido, naquele mesmo momento, laquear as trompas só para não se arriscar a ser mãe no futuro.
Satisfeita com os progressos, a loura investiu ainda mais na comemoração do primeiro ano de casamento de ambas, planeando ao pormenor para que tudo ficasse nos conformes. Na véspera, assim que a morena dera como terminado o dia de trabalho, a outra, não descurando um único aspecto do seu plano, pedira-lhe que preparasse umas “vestimentas a rigor” para o dia seguinte, palavras suas, ditas com aquele típico sorriso maroto, acompanhado por brilho no olhar e covinhas pronunciadas. Como é que Daniela havia de resistir? Pergunta retórica, a rapariga não estava minimamente interessada em resistir.
Prevendo os planos de Susana, a rapariga decidiu-se a, finalmente dar uso ao conjunto de lingerie que Guida lhe dera nos anos, acompanhado de um cartão que dizia: “Mais para a Susy que para ti, agora não tens desculpa para usares cuecas de avozinha”. Que insulto, mas também, o que esperar da namorada da amiga? Não aceitando a provocação sem resposta, a morena dera-lhe, nos anos dela, um conjunto de gilletes com a seguinte missiva: “Para a Marta conseguir lá chegar, o corta-relva estava fora das minhas posses”.
Assim, Daniela viu-se, logo pela manhã daquele dia, presenteada com um pequeno-almoço capaz de rebentar o estômago a um elefante e uma Susana particularmente melosa e alegre, se é que tal era possível. Mal se ergueu da cama, a loura atirou-se para cima de si, voltando a deitá-la, antes de a cobrir com abraços, beijinhos e saídas lamechas, “Coisa linda! Mais um aninho contigo a teu lado, bebé!”
“Piegas da gaja…”, rosnou a rapariga, embora não conseguisse manter a seriedade durante muito tempo, o certo era que ela própria também não cabia em si de feliz. Pondo os braços em torno do pescoço da outra, puxou-a mais para si, retribuindo. Quando a necessidade de respirar era demasiado para adiar, a morena volta-as, sentando-se por cima da cintura de Susana, “Toda acesa logo de manhã, não tens remédio”
“Detesto aquela semana do mês”, resmungou a loura, aborrecida por Daniela as fazer ficar no celibato sempre que o Benfica jogava em casa, “Por mim não me importava de ficar com a língua vermelha, tudo menos a abstinação!”
“Abstinação?!”, ultrajou-se a rapariga, que fingiu esganar a outra, na brincadeira, o que originou mais riso, “Abstinência! Ai que ursa!”
“Ou isso”, respondeu Susana, dando uma palmada no traseiro da morena, “Ursa mas tu gostas!”
“Guarda isso para logo à noite”, picou Daniela, baixando-se para beijar a loura, antes de se levantar, piscando-lhe o olho pelo caminho. Quando se encontrava a tomar o pequeno-almoço, pôde verificar que a outra se esmerara e, falando no diabo, ali estava ela, a caminhar para a cozinha ainda com a t-shirt com que dormira vestida e o cabelo caótico. Sentando-se ao lado da rapariga, não se fez rogada em ajudá-la com a refeição, mais que não fosse porque tinha feito bastante porque previa que todas as energias que conseguissem consumir fossem bem-vindas.
Quando acabou de comer foram-se aprontando para saírem. A morena já ia a deitar a mão a um par de calças desbotadas, caso não tivesse sido impedida por Susana, de nariz torcido e expressão desagradada, “Leva antes aquele vestido amarelo clarinho que eu gosto”
“Fazes-me levar vestido quando tu levas calças”, replicou Daniela, vasculhando por entre a roupa. Dada a ocasião faria a vontade à outra.
“São as justas, não as azeiteiras!”, respondeu a loura, lutando para se meter dentro das calças, coladas à pele. Mal as conseguiu vestir, bufou de alívio, antes de se voltar para a morena, “Até levo blazer!”
“Ai coisa mais linda”, zombou a rapariga, mesmo que achasse que as sandálias baixas, as calças justas, a camisa branca e o blazer preto ficassem bem em Susana, “Porque é que eu nunca te vi de vestido?”
“Além de ser incómodo e nada prático…”, começou a loura, recalcando a memória constrangedora de quando Guida a fizera usar uma saia com saltos altos, na qual só dera meia dúzia de passos antes de cair redonda, “…o ventinho nos genitais faz impressão”
“Os teus é que precisam de apanhar ar”, comentou Daniela, com uma expressão repugnada fingida. A outra fulminou-a com o olhar, antes de ir em passos largos para a casa de banho para se acabar de arranjar. Pelo caminho, a morena ainda a ouviu reclamar, “Só me aleijas, tu só me aleijas”
Divertida, a rapariga foi ter com a loura, que se encontrava a lavar os dentes, e atirou-se a ela num abraço, enternecida, “Gostanti!”
Susana afugentou-a, com o sobrolho franzido, com uma sobrancelha tão exageradamente erguida que Daniela apenas conseguiu fazer o seu beicinho, a muito custo. Mesmo assim, a loura foi afectada, tanto que puxou a rapariga para si e a beijou. Quando a morena se conseguiu soltar, virou-se para o lavatório, onde cuspiu pasta de dentes, com uma expressão aborrecida, “A sério, Susana…”
A outra limitou-se a mostrar as covinhas e a continuar o que estava a fazer antes de Daniela ter chegado. A rapariga revirou os olhos e, também ela, se arranjou e se preparou para sair para onde quer que Susana tivesse planeado. Fora um percalço ou outro que envolveu a mão da outra a passear na perna da morena, chegaram rapidamente a um restaurante à beira-mar escolhido pela loura. Mal colocou o pé fora do carro, Susana inspirou fundo, saboreando plenamente aquele aroma a maresia. Ao reparar na expressão risonha de Daniela, a loura compôs o blazer e pôs o braço de modo a tomar o da rapariga no seu, coisa que ela prontamente aceitou.
No restaurante, decorado com um tanque de lagostas na entrada e temas navais, escolheram uma mesa junto à janela, um tanto afastada do resto dos clientes. A outra puxou a cadeira para que a morena se pudesse sentar sem que, desta vez, se estatelasse no chão. Assim que Daniela se encontrava instalada, Susana suspirou de alívio por estar a conseguir contornar todos os possíveis “fails” que estivessem prestes a acontecer. Felizmente para ambas, o almoço decorreu sem contratempos, em bastante privacidade, acrescente-se, a outra não fora abordada por algum fã exaltado.
Quando terminou o prato principal, a rapariga pediu um gelado, que deu a provar à loura, levando-lhe a colher à boca, como se o fizesse a uma criança, gesto que não passou despercebido pela outra, que comentou, “Andas a treinar para o nosso filho?”
A morena tocou-lhe com a colher no nariz, deixando-lhe uma marca amarela de gelado de caramelo, antes de lhe deitar a língua de fora. Susana limpou o gelado da ponta do nariz e olhou, primeiro para a direita, depois para a esquerda, certificando-se que ninguém estava a ver, depois levou o dedo com que limpara o nariz, à boca, apesar do ar de reprovação de Daniela, ao qual respondeu, “Ahm? Não se desperdiça nada!”
Recostando-se na cadeira, a loura observou o pequeno palco onde alguns músicos tocavam, no outro extremo do restaurante, onde também se juntavam alguns casais para dançar. Entusiasmada, levantou-se da cadeira e esticou a mão para a rapariga, que deitou um olhar a quem dançava e depois à outra, horrorizada, “Eu não danço!”
“Por favor!”, implorou Susana, fazendo beicinho. Sabia que a morena era, muito provavelmente, a pessoa mais descoordenada à face da Terra, incapaz de seguir o ritmo de uma música, quer a cantar, quer a dançar, mas nunca tinha conseguido convencê-la a dançar com ela.
Daniela rosnou-lhe, antes de voltar a atenção para o mar do lado de fora da janela, esperando que a loura acabasse por esquecer aquela ideia. Ela, Daniela Sousa cujo esquema de dança se assemelhava a um tropa a marchar…
“Mh…vá lá…mh!”, insistiu a outra, ainda com o braço esticado, “Só uma!”
“Pronto, está bem”, resmungou a rapariga, rangendo os dentes. Aceitou a mão de Susana, cujo sorriso radiante a enfurecia, naquele momento, ainda mais. Quando já estavam na pista, perguntou, “E agora o que é que eu faço?”
“Mete a mão esquerda no meu ombro e dá-me a direita”, disse a loura, pondo a sua mão esquerda na cintura da morena, “Agora fazes o que eu faço e o que eu depois disser…começa agora”
Daniela seguiu as indicações, amaldiçoando todos os momentos em que tivera que participar em danças latinas, ou em valsa, ou no que quer que fosse, simplesmente não era talhada para aquilo. Imitando os passos da outra, acabou por se deixar guiar, dando o seu melhor para não sair do esquema, nem para pisar Susana. A loura, por sua vez, era algo que lhe saía naturalmente, como cantar ou desenhar e puder fazê-lo com a rapariga, finalmente, tornava aquilo ainda melhor. Ocasionalmente aproximava-se do ouvido da morena e dizia, “Estás a ir bem”
Sentindo uma onda de confiança, Daniela descontraiu, muito para alegria da outra. Quando a música chegou ao fim, começou outra, num ritmo mais lento, uma balada. Agradada com o à-vontade da rapariga, Susana aproveitou para dançarem mais uma, puxando a morena para si, de modo a ficarem quase encostadas, “Põe os braços no meu pescoço…isso, agora dás passos curtos”
Pondo os braços na cintura de Daniela, a loura deu o primeiro passo, o que baralhou a rapariga durante um pouco até que apanhou o ritmo. Quando ambas se acomodaram, a outra acabou por encostar a testa à da rapariga, sorrindo. Naquele momento, os modos socialmente inadequados da morena, advindos de uma súbita onda de “borboletas no estômago”, emergiram, tanto que esta sorriu atabalhoadamente e disse, “Tens comida…aí entre os dentes”
Susana suspirou, revirando os olhos. Daniela fazia sempre questão de estragar um belo momento romântico. Tentando corrigir os danos, a rapariga aproximou-se para dar um beijo à loura, porém, acabou por dar uma cabeçada na testa desta, com tanta força que a fez desequilibrar-se e cair para trás. No chão, a outra gritou, exaltada, “Sempre a mesma merda, foda-se!”
“Desculpa…”, pediu a morena, embaraçada, esticando a mão para auxiliar a outra a levantar-se.
Resmungando qualquer coisa que soou a “Mónica, volta…estás perdoada”, Susana não aceitou a ajuda de Daniela, pondo-se de pé sozinha e dando-lhe um encontrão com o ombro quando passou por ela. Constrangida e magoada, a rapariga reprimiu-se a si própria pelos seus modos desastrados. Quando chegou ao pé da loura, a quem começava a surgir um hematoma na testa, esta apenas disse que iam embora e atirou com uma nota para cima da mesa, nem esperando pelo troco.
O caminho até ao carro foi preenchido por um silêncio constrangedor, situação que apenas mudou quando a outra bateu com a porta do veículo, o que fez com que a tristeza da morena desse lugar a irritação, “Não estragues o que não é teu”
Susana deitou a cabeça sobre as mãos, antes de suspirar, “Não era mesmo assim que contava que corresse o dia”
“Desculpa lá se sou desastrada”, disse Daniela, num tom propositadamente irónico, “Mas também tu tens os teus defeitos e eu calo-me e levo com eles”
“É diferente, tu pareces mesmo atrasada mental!”, atacou a loura, sentindo a raiva tomar conta de si, “Bicho do mato…”
“Deixa ver…ah sim, oh Dani, a capital dos Estados Unidos não é a Califórnia?”, troçou a rapariga, fazendo uma voz fininha e expressão imbecil, “Queres mais? Mas Dani! Um quilo de chumbo tem que pesar mais que um quilo de algodão! Não podem pesar o mesmo!...Sim, a atrasada mental sou eu”
“Retira o que disseste”, advertiu a outra, lançando-se à morena. Daniela não conseguiu registar o que aconteceu a seguir, quando abriu os olhos, viu que conseguira agarrar a mão de Susana, instantes antes de esta lhe acertar na cara.
A loura pareceu tão abismada quanto a rapariga. Afinal ia fazendo outra vez o que prometeu que não voltaria a fazer. Tremendo dos pés à cabeça, deixou cair o braço, ainda com a mão envolta na da morena, “Desculpa…”
“É melhor…ir-me embora uns tempos”, disse Daniela, sentindo o medo que havia algum tempo que a outra não lhe provocava.
“Não…eu…não queria, não sei em que é que estava a pensar…”, gaguejou Susana, agarrando a mão da rapariga, “Por favor não tenhas medo de mim!”
“Se eu não te tivesse agarrado tinhas-me batido”, murmurou a morena, mais para si do que para a outra. Pela primeira vez desde que dissera o sim à loura estava a pensar se aquele casamento, concretizado no fogo do momento, teria sido a melhor decisão.
Enterrando as mãos no cabelo, Susana soltou um gemido angustiado, até que não conseguiu conter mais o choro. Com os rastos das lágrimas marcados nas faces, aproximou a cara de Daniela, “Bate-me”
“O quê?”, questionou a rapariga, surpreendida. A imagem da loura, banhada em lágrimas a tremer como varas verdes estava a perturbá-la seriamente.
“Dá-me um estalo…qualquer coisa”, pediu a outra, com um tom de voz esganiçado, muito diferente do seu habitual.
“Susana…”, tentou a morena, completamente impotente face ao ataque de histerismo de Susana. Nunca a tinha visto tão descontrolada e não sabia o que fazer. Muito a medo, abraçou a loura, deitando a cabeça desta sobre o seu peito, contendo os soluços desta, que não conseguia parar de chorar. Com calma, foi-lhe passando as mãos pelas costas e pelos cabelos, até que os pedidos de desculpa da outra cessaram e os espasmos acalmaram, “Já passou…calma Suse, pronto”
O tempo foi passando, até que Susana acabou mesmo por adormecer, já sem uma única reserva de energia. Quando Daniela deu por si, já estava a anoitecer e, ela própria, não tinha força para mexer um músculo que fosse. Fechou os olhos e adormeceu, também, junto à loura. Quem as visse teria, diante de si, a perfeita imagem de inocência e fragilidade.
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O som de algo ou alguém a bater no vidro da janela acordou-as a ambas. Era noite cerrada, estava tão escuro que tiveram dificuldades em identificar a figura do lado de fora do veículo. Abrindo a janela, Daniela foi abordada por um indivíduo fardado, que mostrou um distintivo, provando pertencer à PSP, “Vou ter de pedir que saiam do veículo e me acompanhem”
“Ahm?”, questionou Susana, levantando a cabeça do peito da rapariga.
“Recebemos uma queixa anónima de um caso de violência”, declarou o agente, “A Sra. Susana Marques tem que vir connosco”
“Eu não fiz nada a ninguém!”, gritou a loura, cujo estado de histeria ameaçou voltar, “Por favor…diz-lhes”
“É verdade, ela não bateu em ninguém”, esclareceu a morena, afagando o braço da outra, tentando acalmá-la.
“Como medida de prevenção ela tem que nos acompanhar”, repetiu o agente, num tom severo, “A bem ou a mal”
“É a minha mulher, eu não lhe ia bater!”, tentou Susana, apavorada, “Tem que acreditar em mim”
“Eu não tenho que acreditar em nada”, replicou o agente, com uma mão sobre as algemas, não fosse a loura fazer algo, “Só lhe estou a mandar vir comigo e a sua mulher que preste declarações à minha colega, agora como é que quer fazer isto?”
Afagando a face da outra, Daniela murmurou-lhe que seria melhor ir mas que iria correr tudo bem. Abraçando a rapariga antes de sair do carro, a outra seguiu o polícia até a um carro patrulha. Olhando para trás enquanto se afastavam, Susana nem conseguia acreditar no quão surreal toda aquela situação era. Só de pensar que ainda naquela manhã tinha as melhores expectativas em relação àquele dia, iriam almoçar, depois dariam um passeio à beira-mar e passariam a noite num hotel e seria a comemoração do primeiro ano de casadas perfeito. Ao olhar para trás uma última vez, ainda pôde ver um sorriso por parte da morena, tentando encorajá-la.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Capítulo 80

O aniversário do primeiro ano de casamento de ambas estava à porta e Susana já tinha umas ideias na manga, até porque não queria desleixar os momentos e as surpresas românticas que fazia a Daniela desde o início do namoro. Até à data do aniversário ainda tinha uns dias, dias esses que usaria para acabar todos os preparativos. Sorrindo de satisfação, espreguiçou-se na sua cadeira, já devia ser quase horas de almoço e a morena tinha-lhe preparado a refeição. Pegando na lancheira, dirigiu-se à esplanada do estúdio, onde poderia comer em paz descansada.
Desapertando o nó elaborado que Daniela dera ao pano violeta que cobria o recipiente, caiu-lhe aos pés um postal com dois cãezinhos peludos. No verso, na caligrafia redonda e grande da rapariga, estava escrito, “Para a melhor mulher do mundo”. Sorrindo, enternecida, a loura guardou o postal, mais tarde colocá-lo-ia afixado sobre o seu local de trabalho. Abrindo a caixa, deparou-se com a sua sandes predilecta, cuidadosamente ornamentada e cortada. Tinha, também, uma bebida muito do seu agrado, para dar aquele último retoque. Derretida, a outra comeu com gosto, sentindo o sol quente de Junho bater-lhe na face. Estava a dar os últimos tragos no sumo, quando apareceu o produtor, pálido como uma figura de cera.
Avistando-a, caminhou a passos largos na sua direcção, com uma revista enrolada na mão. Ao chegar até junto de Susana, atirou com a revista para cima da mesa, com um som seco. Lívido, questionou, num tom angustiado, “Agora deu-te para isto?”
A loura revirou os olhos, já tinha visto cada pormenor da sua vida privada publicado em revistas, exposto para todo o mundo ver. Mais um não a faria, sequer, levantar o sobrolho. Aborrecida, deu uma mirada à revista, onde estava na capa uma foto sua com Daniela à saída do hospital. Na imagem, as diversas marcas das suas mãos estavam, bem visíveis, na pele clara da rapariga e o facto de, nessa foto, Susana estar a agarrar o braço da morena e esta estar com uma expressão de dor, não contribuía para que tudo aquilo parecesse melhor. O título gritava aos quatro ventos, “MAUS TRATOS”.
Sentindo um calafrio, abriu na página em questão: “No passado dia…foram vistas a sair do hospital, o ambiente parecia tenso…a mulher apresentava marcas distintas das mãos de Susana nos braços e pescoço, bem como várias feridas na cara…conhecida pelo seu temperamento instável é provável que Susana tenha perdido o controlo”. Levantando o olhar da revista, dirigiu-se ao produtor, sem qualquer cor no rosto, “Não acredita mesmo que eu fosse…eu não…é a Daniela, porra, eu nunca lhe iria bater”
Mal aquelas palavras lhe saíram da boca, mordeu o lábio, consciente que acabara de mentir. Mas aquelas acções pertenciam ao passado, quando perdera mesmo a cabeça e, este tempo depois, nunca se perdoara. Ainda sem deixar de fitar o produtor, tentou, “É um mal entendido…”
“Ela está toda marcada!”, explodiu ele, levando as mãos à cabeça, deixando os cabelos, outrora perfeitamente penteados, num ninho, “Para que é que fizeste isso?! E AGORA O QUE É QUE AS PESSOAS VÃO PENSAR?!”
“Eu…ela…”, gaguejou a loura, perdendo qualquer fio de raciocínio que ainda conseguisse, porventura, ter, “Ok fui eu que a deixei negra…mas não foi por isso!”
“Então tu espancaste-a mesmo!”, grunhiu o produtor, colérico, decerto que já estaria a criar uma úlcera no estômago, “Agora como é que justificamos isto?!”
“Nós…”, justificou-se a outra, sabendo que estava a enterrar-se cada vez mais. Mais valia dizer a verdade, por muito íntima que fosse, “Sexo bruto…fizemos”
“Hm?!”, grasnou o outro, num som que aparentava um coelho a ser estrangulado. Agora já tinha ouvido tudo…
“Ela gosta à bruta e eu deixei-me levar”, admitiu Susana, suspirando, com a cara escondida nas mãos, “Por isso é que está assim, acha mesmo que eu lhe ia fazer isso de propósito para a magoar?”
“Eu sei lá, tens um feitio desgraçado e bebes que nem uma esponja”, guinchou o outro, embora o alívio que sentisse fosse notório, “Se a tua imagem se deteriorar, tu pedes à tua mulher que fale, até então, tu não dizes nem fazes nada”
Concordando, a loura esperou que o produtor, tão nervoso que o andar parecia descoordenado, se fosse embora para ligar a Daniela. Chamou, chamou e chamou, mas não obteve resposta, a rapariga deveria estar ocupada. Fechando os olhos em frustração, a outra deixou-lhe uma mensagem para que lhe ligasse o quanto antes. Até lá, teria que acalmar a sua ansiedade com toda a nicotina que conseguisse inspirar. Quando o quarto cigarro não surtiu efeito, ponderou ir dar um passeio, podia ser que conseguisse descontrair.
Assim o fez, deambulando pelas ruas da cidade, em busca da paz interior. Estava a observar a água de uma fonte, quando uma rapariguinha cuja idade não devia estar muito longe dos doze a abordou, com as bochechas ruborizadas, “S-Susana?”
“A própria, diz linda”, disse Susana, sorrindo, aquela era, sem dúvida, a parte mais gratificante do seu trabalho.
“Só lhe queria dizer olá…”, murmurou a menina, envergonhada, olhando para os pés, “Gosto muito de si”
“Obrigada”, agradeceu a loura, afagando a face à criança, nervosa mais nervosa seria impossível.
“Matilde!”, chamou quem seria, em princípio, a mãe, preocupada. Quando avistou a rapariga, a sua inquietação deu lugar a um alívio imenso, tanto mais que até correu para junto desta. Quando viu Susana, desfez-se em agradecimentos, “Ai…obrigada por a ter encontrado! Esta miúda dá cabo de mim…”
“Não tem importância”, retribuiu a loura, levantando a cabeça para encarar a senhora, sorridente. No entanto, quando esta viu de quem se tratava, afastou a menina e advertiu, “Você…sua…como se atreve! Já não lhe basta o que fez à sua…afaste-se!”
Não desejando mais do que não levantar ondas, Susana limitou-se a erguer as mãos em sinal de derrota, antes de se virar costas, desanimada. Quando se ia embora, a voz da criança fez-se ouvir, “Muito prazer em conhecê-la! Gosto muito de si”

domingo, 4 de dezembro de 2011

Capítulo 79

“Os filhos do Pedro acabaram de nascer”, ouviu Susana, sentindo um sorriso desenhar-se-lhe nas feições. Mesmo não sendo seus, uma alegria enorme percorreu-a toda, como se tivesse um balão dentro do peito. Radiante, perguntou, “Então? Quando é que os vamos ver?”
“Suponho que os possamos ir ver lá para o final da tarde…”, anuiu Daniela, mordendo o lábio inferior até o sentir ensanguentado. Já nada podia fazer para impedir o desastre que seria quando a loura visse as crianças, em toda a sua fofura recém-nascida. E pensar que tudo o que tivera de ouvir por parte da outra, desde nomes possíveis a brincadeiras que já imaginava com as crianças, não seria nada quando comparado com o que iria ter que ouvir.
Soltando um risinho de entusiasmo, Susana, ainda a emanar felicidade por todos os poros, pegou na rapariga pela cintura, elevando-a, antes de a rodopiar no ar, alegremente, “Qualquer dia somos nós!”
Por muito que só a ideia a fizesse ter vontade de ir para um canto chorar em posição fetal, a felicidade da loura nunca deixaria de afectar a morena, a ponto de sorrir também. Apoiando os braços sobre os ombros da outra, deu-lhe um beijinho à esquimó, “Veste-te enquanto eu vou fazendo o almoço, ainda temos a tarde toda para matar saudades”
Susana pousou-a no chão, delicadamente, antes de lhe dar um beijo. Enquanto se vestia, a morena foi preparando as coisas para o almoço, não faria nada elaborado, mas seria do agrado da outra. Tinha já tudo quanto iria usar em cima da mesa, quando a loura entrou na divisão, com a intenção de ajudar. Daniela não queria senão mimá-la, portanto disse-lhe, “Não te preocupes, senta-te que eu trato disto”
A outra deu-lhe uma palmada no traseiro, bem-disposta, e dirigiu-se ao frigorífico, feliz por verificar que a sua grade ainda lá estava, mais fresca que nunca. Retirando uma garrafa, disse, “Não gostas mesmo de cerveja, pois não?”
“Ahm?”, respondeu a rapariga, enquanto temperava a comida, “Não gosto nem de cerveja, nem de derivados, mas acabei com o resto de erva que tinhas…desculpa, mas não tinha outra forma de manter a sanidade”
“Tranquilo, arranjo mais”, replicou Susana, por entre tragos, aquela devia ser a única situação em que preferia louras a morenas, a seu ver, não havia melhor que uma loura bem fresquinha, “Aquela cabra lá do escritório…a Ana, ou caralho que se chamava, deu-te muita chatice?”
“Na verdade já é o pão nosso de cada dia”, suspirou a morena, descarregando a frustração nos bifes, que bateu com toda a força, “Outro dia perguntou como é que iam os teus chatos…disse-lhe que estavam bem e que também mandavam cumprimentos”
A loura riu-se, quase engasgando-se com a cerveja. Assim que acalmou e recompôs, perguntou, séria, “Queres que tenha uma conversa com ela?”
“Não é preciso, ela deve estar agora a raspar os fungos da rata”, resmungou Daniela, enquanto punha o almoço em cima da mesa, ao mesmo tempo que a outra terminava a cerveja, com um arroto indiscreto.
“Cheira bem”, comentou Susana, enfiando o nariz na periferia do prato, já sentindo a água a crescer na boca.
“Não estavas cá, tive que aperfeiçoar os meus dotes culinários”, respondeu a rapariga, confiante da sua técnica, servindo-se, tanto a si própria, como à loura.
“Não foi só com a comida”, brincou a outra, entusiasmada, tanto que fazia estremecer a cadeira, “Vi o ursinho!”
A morena deu-lhe um chuto, acertando-lhe numa canela, causando dor suficiente para que Susana gemesse, “Não ia gozar…é bem fofo!”
“Ao menos o ursinho não diz asneiras”, retribuiu Daniela, dando um soco na brincadeira à loura, “Nem ressona”
“Eu não ressono!”, contra-atacou a outra, indignada, agarrando o braço da  morena, “Ou se calhar um bocadinho...não interessa! Conta lá, como é que te aguentaste sem mim? Dedo no grelo o tempo todo?”
“Resolvi bem o assunto sozinha, se é isso que queres saber”, admitiu a rapariga, retirando o braço e levando a esparguete à boca, como se fosse o tema mais apropriado para se debater à hora da refeição.
“Nem queiras comparar”, disse logo Susana, com a boca cheia, fulminando a morena, “Comigo até fazes a esparregata, se for preciso”
“A esparregata…alguém está a ficar muito convencida”, espicaçou a morena, revirando os olhos, em gesto de gozo.
A loura limitou-se a acenar para que esperasse e a acabar a refeição em silêncio, muito para diversão de Daniela, que a continuou a picar. Assim que a rapariga se levantou para colocar os pratos em cima do balcão, a outra atira com ela de costas para cima da mesa, prendendo-lhe os pulsos por cima da cabeça, “Não sou assim tão boa, hm?”
Juntando o gesto à palavra, apoderou-se do pescoço de Daniela, ocasionalmente mordendo-o, com força suficiente para deixar uma ferida. Puxando-a para si, beijou a rapariga, com alguma brusquidão, antes de a voltar a atirar para trás, desta vez fazendo com que a mesa cedesse e fosse abaixo. Mas eram pormenores, nada que valesse a sua atenção. Por cima dos escombros, a outra, rasgou o top da morena, aproveitando a pele exposta para atacar, deixando marcas por onde passava. E Daniela? Essa adorava sempre que Susana era bruta, valia bem a pena os cabelos arrancados e as marcas.
A expressão de determinação da loura, de sobrolho franzido e ponta da língua de lado enquanto lutava com o botão dos calções da rapariga fez com que esta não conseguisse conter o riso, o que provocou ainda mais a outra, “Estás-te a rir? Agora vais de quatro”
Tomando a iniciativa, virou Daniela de costas para si e, com uma mão fez o que tinha a fazer, fazendo com que a rapariga gemesse e, com outra, agarrou-lhe o pescoço, pondo-lhe quase a cabeça em cima da mesa. Aquilo era algo que nunca tinha feito, portanto a morena sentiu algum pânico ao não conseguir respirar. Susana não parou, apertando cada vez mais, sem cessar mesmo quando Daniela lhe tentou afrouxar o aperto. No entanto, mesmo que estivesse assustada com toda aquela situação, não conseguia evitar adorar o que a loura lhe fazia com a outra mão, tanto mais que já fechara os olhos, estava tão perto e a outra sabia-o.
No momento em que a rapariga atingira o clímax, a outra largara-lhe o pescoço. O súbito fluxo de oxigénio intensificara-lhe o orgasmo para o dobro, o que fez com que a morena em vez de gemer, gritasse, antes de se deixar cair, inspirando profundamente, “Tu…isto podia…ter corrido tão mal”
“Magoei-te muito?”, perguntou Susana, dando um beijo na bochecha de Daniela, “A Guida é que me deu a ideia, ela adora estas coisas esquisitas e garante que se for bem feito é óptimo”
“É óptimo, a sério”, esclareceu a rapariga, massajando o pescoço, com os olhos vidrados, “Só que assustaste-me mesmo”
“Tu sabes que eu não te ia fazer isto com intenção de te magoar”, disse a loura, sentindo-se incomodada.
“Eu sei”, assegurou a morena, beijando a outra, antes de a abraçar, “Um dia repetimos e vês por ti própria”
Quando sentiu os restos mortais da mesa debaixo de si, afastou Susana, “A mesa…tu partiste mesmo a merda da mesa”
“Olha bem para a minha cara de preocupada”, replicou a loura, encolhendo os ombros, antes de se voltar para Daniela, sugestivamente, “E retribuíres?”
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Estar por cima do cadáver de uma mesa esconjurada a trocar mimos nunca poderia ser considerado o paradigma de uma tarde romântica mas Daniela não se queixava, Susana era definitivamente confortável que chegasse. De dedos entrelaçados, a loura aproximou-se da rapariga, beijando-a, “Amo-te”
“Eu sei”, brincou a morena, antes de ter sido interrompida pelo som do telemóvel a tocar em cima do balcão. Refilando, levantou-se, muito para desconsolo da outra e viu quem se tratava, era Pedro. Atendeu, “Então daddy?”
Susana levantou-se com a velocidade de um boneco de mola, só lhe faltava crescer cauda e começar a abaná-la. Escutando a conversa de Daniela, captou a parte que mais lhe interessava, “Sim, estamos aí daqui a nada”
“Vamos ver os meninos?”, perguntou, rejubilante, já de pé.
“Sim…veste-te e vamos”, suspirou a rapariga, desanimada. E assim começava a sua desgraça, pelos vistos. Enquanto a loura se vestia à velocidade da luz, a morena dirigiu-se ao quarto para procurar uma indumentária nova, tendo em conta que a que tinha anteriormente ficara destruída. Ignorando os incentivos da outra para que se despachasse, levou o seu tempo, compondo-se. Quando se observou ao espelho, ficou horrorizada, tinha um golpe no lábio e as marcas dos dedos de Susana estavam bem visíveis no seu pescoço.
“Rápido!”, chamou a loura, puxando-a pelo braço, encaminhando-a para a mota, que a seu ver seria muito mais veloz que o carro. De nada valeram os protestos da morena, foi num ápice que deu por si na sala de espera da ala de obstetrícia, onde estava Pedro. Se havia alguém mais entusiasmado que a outra, seria ele, que parecia ter ganho a lotaria.
“Olha a madrinha!”, saudou ele, tão alegre que saltitara, até se atirar que nem um torpedo, para cima de Daniela, atirando-a ao chão, “São tão lindos! A minha Maria João vai ser tão menina do papá!”
“Sim papi, estou a ver que sim”, tentou a rapariga, de tudo fazendo para o tirar de cima. Quando a enfermeira lhes foi pedir que fizessem menos barulho, o rapaz não teve opção senão levantar-se. Ainda a transpirar felicidade, encaminhou-as para o quarto onde estava Cláudia com os filhos, um de cada lado. De onde estava, a morena não conseguia ver muito mais que dois volumes debaixo de umas mantas, porém, quando se aproximou, observou duas crianças recém nascidas que deveriam, muito provavelmente, ser as mais adoráveis que alguma vez tivera a sorte de ver.
Com os seus cabelos claros, macios como uma pluma, eram a imagem fidedigna um do outro. Ambos com a pele rosada, grandinhos e rechonchudos, estavam profundamente adormecidos. Cláudia, apesar do seu ar estafado, era a perfeita personificação da felicidade. Olhando para Susana, Daniela não pode deixar de reparar na adoração com que olhava para as crianças, com um sorriso ligeiro e um brilho no olhar. Cláudia deve ter reparado, pois ofereceu, “Não quer pegar?”
Quem a observasse diria que lhe tinham oferecido um milhão de euros. A loura pegou no que se encontrava mais próximo, João Pedro, tão cuidadosamente como se fosse feito de cristal, e encostou-o a si, derretida. O bebé, que acordou, começou a chorar, muito para susto dos pais. Mas a outra, não pareceu minimamente incomodada, recostou-o melhor e, embalando-o um pouco, sussurrou qualquer coisa que a rapariga não entendeu, mas que pareceu acalmar o miúdo.
“Tem muito jeito para crianças”, comentou Cláudia, sorrindo. Voltando-se para a morena, perguntou, “E tu Daniela? Não queres pegar num?”
A morena olhou para a expressão sorridente da namorada do amigo, depois para este, que acenou em encorajamento e, por fim para Susana que deu um beijo na testa do bebé e lhe sorriu. Engolindo em seco, Daniela, pegou em Maria João, que emitiu um som abafado, o que assustou a rapariga que olhou para o resto das pessoas no quarto, em busca de conselhos. A loura, vendo-a aflita, disse, “Estás a ir bem, não é preciso teres medo”
Respirando fundo, a morena embalou um pouco a bebé, sentindo aquele pequeno corpo quente contra si. Quando Maria João acalmou, Daniela permitiu-se a descontrair, afagando a mãozinha da menina que pendia ao lado desta. Talvez conseguisse dar conta do recado de uma sua e de Susana. Ok de onde é que aquele pensamento aparecera? Sorrindo para si, voltou a despertar quando sentiu a mão da bebé fechar-se sobre o seu dedo, “Oh”
“Acho que ela gosta de ti”, regozijou-se Pedro, ao ver o momento partilhado entre a madrinha e afilhada.
Entretanto apareceu a enfermeira, a espumar por cansarem a mãe daquela maneira. Despedindo-se, um tanto à pressa, a rapariga disse, “Parabéns, são lindos”
“Saem ao pai”, brincou o amigo, piscando o olho, “Agora bazem!”
Rindo, Daniela e Susana abandonaram o quarto, caminhando para a saída. Enquanto a loura disparava um discurso enorme sobre o quão bonitos eram os recém-nascidos, a rapariga reflectia. Aqueles dois, tão adoráveis, tão frágeis, com tantas características tanto de Pedro como de Cláudia tinham mexido um pouco consigo, quer quisesse admitir, quer não. Assim que estavam fora do hospital, tocou com a mão no braço da outra, “Susana…”
“E eles têm um narizinho tão querido!”, continuou Susana, antes de se interromper, “Hm? Estou-te a aborrecer com a conversa, não estou?”
“Não…”, disse a morena, “Olha, talvez crianças não sejam assim tão más…”
A loura deteve-se, olhando para Daniela como se estivesse a ver Deus, chegando mesmo a agarrar-lhe o braço, “Tu disseste mesmo isso?”
“Sim…acho que podíamos pensar nisso”, confessou a rapariga, corando um pouco. Ao sentir a mão da outra apertar-lhe o braço, queixou-se de dores. Quando Susana lhe foi inspeccionar o braço, viram marcas explícitas dos dedos da loura, espalhados por toda a extensão dos braços, consequência daquela sessão na cozinha. Ao olhar melhor para a cara da morena, Susana deparou-se com algumas feridas, sobretudo no pescoço, “Ai desculpa…”
“Não tem importância”, sossegou-a Daniela, completamente ignorante do facto de um flash ter disparado nesse preciso momento, conseguindo um óptimo plano das suas feridas. Sorrindo para a loura, disse, “Entusiasmaste-te mas eu gostei”

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Capítulo 78

Os últimos meses haviam sido agitados ao máximo para Susana. Com o lançamento do seu segundo CD, toda a divulgação e publicidade que conseguisse fazer seria pouca. Sessões de autógrafos, entrevistas e concertos seriam imperativos. Desta forma, aquele mês havia sido passado fora de casa, com diversos concertos espalhados por várias cidades do país agendados e aparições em programas televisivos. Por muito que todo aquele mundo lhe agradasse, nem tanto pelo dinheiro, mais por poder tocar, o facto de ter vindo a passar cada vez menos tempo com Daniela preocupava-a.
A rapariga submergida em trabalho e a loura na mesma situação, constantemente a chegar a casa de madrugada e a sair com as galinhas começava a afastá-las um pouco. Se antes, mesmo não se vendo, conseguiam despender de uma hora para falarem ao telefone e matar saudades, agora já não podiam afirmar o mesmo. As conversas começaram a ser menos e menos frequentes, até que os períodos que passavam sem notícias uma da outra, em bom rigor, eram de mais de duas semanas. Portanto, a vontade que Susana tinha de terminar o último concerto daquela digressão e regressar para junto da morena atingira proporções megalómanas, ainda para mais dado que a loura, como forma de eliminar a distância que se havia imposto entre ambas, tinha uma surpresa para Daniela.
Foi com recurso às suas últimas reservas de energia e grande satisfação que deu por terminado aquele concerto. Ofegante mas com um sorriso nos lábios, despediu-se do público, agradecendo-lhes por comparecerem e por a terem ajudado a chegar até onde estava. Ela era, realmente, muito abençoada por ter tido a sorte que tivera e estava disposta a retribuir a tudo e todos os que lhe deram a hipótese de estar onde estava a fazer o que fazia. Porém, só desejava que toda aquela dedicação não lhe acabasse por sair mais caro do que julgara. Caindo sobre o colchão do seu quarto de hotel, pouco ou nada tardou até que adormecesse.
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Os primeiros raios da manhã incidiram sobre a face de Daniela, despertando-a mais cedo do que gostaria. Resmungando, virou-se para o outro lado, apenas para se deparar com um espaço vazio e lençóis frios. Já haviam passado alguns meses, mas nem por isso se conseguira habituar à ausência de Susana, fosse quando regressava a casa para junto de ninguém, fosse quando acordava sozinha, fosse quando se sentia necessitada. Sentia falta da loura, ponto. Enquanto a outra vinha e não vinha, preparara uma surpresa para ela, só esperava que fosse gostar.
Aproveitando o facto de ser fim-de-semana para poder dormir mais um pouco, puxou o ursinho para si, já conseguindo calar a vozinha dentro da sua cabeça que troçava, “Vinte e quatro anos e a dormir com peluches, quando é que viraste tão gay?”. Quando voltou a acordar, o relógio que tinha na mesa-de-cabeceira indicava que já passava das onze, o que traduzia para horas de rastejar para fora da cama e iniciar um novo dia. Foi o que fez, arrastando-se, ensonada, até ao duche, totalmente absorta do som de uma chave a ser introduzida na fechadura.
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Ao ouvir o som da água a correr, um sorriso matreiro apareceu nas feições de Susana. Num instante, pondo-se tal como veio ao mundo, avançou em pezinhos de lã para a banheira, para onde saltou. Para não assustar a rapariga, que ainda assim deu um salto, a loura sussurrou-lhe ao ouvido, “Ssh, sou eu”
A morena, mal acalmou, voltou-se para trás e beijou a outra, “Tive saudades”
Susana retribuiu, encostando Daniela à parede, todos os seus receios que o reencontro pudesse ser constrangedor dissolveram-se como se nunca estivessem lá estado. Nos próximos momentos nada foi dito, limitaram-se, apenas, a eliminar todas e quaisquer saudades que sentissem. Cansada mas satisfeita, a loura puxou a rapariga para si, envolvendo-a num abraço terno, fazendo com que esta sentisse as gotas de água que lhe escorriam sob o seu corpo quente, “Não volto a ir para fora tão cedo…”
Percorrendo os contornos das costas da outra com as mãos, a morena, ainda com a cara no pescoço desta, suspirou, “Espero que não…é verdade, olha…”
Afastando-se de Susana, apontou para o cimo do braço, junto ao ombro, onde se encontrava a sua mais recente aquisição, uma tatuagem que consistia no desenho de uma capelo, a cobra começava enrolada no braço, onde subia até ao ombro e terminava um pouco abaixo da clavícula. Perante o olhar abismado da loura, Daniela clarificou, “Como eu sei que tu não querias uma cobra como animal de estimação, arranjei maneira de ter uma, gostas?”
Mesmo não gostando de répteis, a outra tinha que admitir que gostava do padrão do animal tatuado na pele da rapariga e combinava bem com o padrão tribal que já tinha na anca. Passando a mão pela tatuagem, Susana disse, “Adoro e queria que visses uma coisa”
Virando-se de costas, exibiu um “D” e um “S” entrelaçados, sob a omoplata, numa caligrafia elaborada. Na verdade ambas as suas tatuagens eram tão simples, constituindo mais um tributo que um desenho complexo.
“Oh…”, manifestou-se, apenas, a morena, enternecida até mais não. Com um sorriso panhonha e o olhar vidrado, passou a mão pela tatuagem nas costas da loura, sentindo a pele ligeiramente irregular naquela zona. Aproximando-se, deu um beijo leve onde outrora estivera a mão, “Adorei”
“Já tenho a tatuagem da minha avó, agora queria uma tua”, explicou Susana, sorrindo, um tanto corada, o que não era nada habitual, tendo em conta que as palavras constrangimento, vergonha e embaraço não figuravam no seu dicionário, para o bem e para o mal, “Agora tenho duas tatuagens das duas mulheres da minha vida”
Daniela só não sorriu mais porque tal não era fisicamente possível, tendo, portanto, que se limitar a beijar a loura, que a puxou tanto para si quanto conseguiu. A troca de caricas foi interrompida pelo telemóvel da rapariga, que lá acabou por se enrolar numa toalha e ir atender, reticente. Uns minutos mais tarde, a outra foi ao seu encontro, vendo-a com um ar tão atordoado como nunca antes vira, “O que é que aconteceu?”
“Os filhos do Pedro acabaram de nascer”